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quinta-feira, 20 de junho de 2013

Vale a pena ler de novo!


         Levando em consideração os mais recentes acontecimentos em nosso país, me lembrei de um texto já publicado aqui no blog PV. É um dos textos mais extraordinário que já li e penso que se adequa perfeitamente à atual comoção nacional. Antecipo que sou contra qualquer tipo de violência e vandalismo, mas devo ressaltar que toda esta onda de violência não pode der encarada exclusivamente sob os olhos da repressão. Devemos tentar compreender as razões e os motivos por trás de tanta revolta, antes de emitir nossa sentença. O texto a seguir (em vermelho e itálico) poderá ajudá-lo a compreender meu ponto de vista sobre a questão. Segue também alguns links úteis que contribuirão para o debate.

Acredito que essa ocasião pode ser marcante para o país. Num momento em que se realiza a copa das confederações, os protestos em andamento pela redução das passagens pode se tornar algo bem maior e mais eficiente. Educação, saúde, segurança, emprego, combate à corrupção, etc. são temas que podem ser facilmente incorporados no processo. O país precisa de mudança e quem sabe ela já não está a caminho. O governo dos justos à vista!

PROVOCAÇÕES
Luis Fernando Veríssimo

A primeira provocação ele aguentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão.

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso.


Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz.

Foram lhe provocando por toda a vida.

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça.

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme.

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava.

Estavam lhe provocando.

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça.

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a ideia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa.

Terra era o que não faltava.

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma.

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação.

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou.

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele:

- Violência, não!


Sobre o(a) autor(a): Luis Fernando Veríssimo
Nasceu em 26 de setembro 1936, em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Filho do grande escritor Érico Veríssimo, iniciou seus estudos no Instituto Porto Alegre, tendo passado por escolas nos Estados Unidos quando morou lá.



         Acesse também os links abaixo:

- Exigimos escolas, hospitais, segurança pública, no "padrão FIFA": http://www.change.org/pt-BR/petições/exigimos-escolas-hospitais-segurança-pública-no-padrão-fifa






- http://www.anajure.org.br/exposed-2013/




Um abraço a todos!



Marconi BS Costa




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